domingo, 23 de setembro de 2012

PARA QUE OS FILHOS NÃO PERCAM ALGUMAS DE NOSSAS RAÍZES


As tradições e hábitos familiares que formam minha  história,  e que faço questão de preservar me dão sentido de pertencimento e despertam em mim gratidão pelo que já vivi, por minhas origens, por meus pais e pelo que fez de mim parte de quem eu sou hoje.

Gosto de manter vivas  algumas delas,como por exemplo  as muitas frases que minha mãe sempre tinha na ponta da língua:  versos, provérbios, expressões e trechos de canções, que eu repito em momentos oportunos, e que agora vejo meus filhos repetindo também, ainda que com o sotaque meio capenga!
Gosto de cantarolar  os tangos  que meu pai sempre cantava enquanto dirigia, ou quando os cantava a plenos pulmões nas manhãs de domingo! Gosto de às vezes, tomar chimarrão  na mesma cuia que ele tomava o seu, todas as manhãs, sentado à mesa da copa de nossa casa.

Mas há algo que gosto ainda mais de fazer: as receitas uruguaias que minha mãe fazia e que eram invariavelmente tiradas do livro que ela e todas as mulheres uruguaias possuem  - como que um hábito nacional, eu diria: O Manual de Cocina del Insituto Crandon.

Quando minha irmã se casou, muito antes de mim, levou o livro de nossa mãe com ela,  e anos depois, quando eu me casei minha irmã me passou o livro para que eu pudesse cozinhar para minha família. Em suas páginas se vêem anotações nas bordas com a letrinha miúda da nossa mãe, em outras, rabiscos infantis enfeitam receitas e várias manchas de gordura existem aqui e ali.  Há também páginas que foram coladas umas às  outras com alguma cola comestível que por descuido caiu ali durante a elaboração de alguma receita, tornando impossível decifrar alguns ingredientes ou a forma de fazer uma ou outra receita, o que para mim sempre foi uma grande frustração!

Faz alguns anos comentei com um prima,  uruguaia também, que meu livro Crandon estava na  miséria, mas que ainda assim eu o utilizava!  Meses depois, ela amorosamente me presentou com um exemplar atualizado que trouxe de uma de suas idas e vindas ao Uruguai. Agora tenho os dois, o velho Crandon da minha mãe e o novo Crandon com as mesmas receitas de sempre. Confesso que não foi fácil aposentar o velho livro, mas procurei ser racional e passei a usar então o livro novinho em folha no qual foi escrita a seguinte dedicatória:

Para quien ya hace cosas riquísimas y con mucho amor. Y para que los hijos no pierdan algunas de nuestras raíces. Con mucho cariño, Maria José. 21.06.2008.

Pois bem, eu continuo fazendo os pratos salgados, bolos, doces, biscoitos, pães, tortas e outras delícias desse livro que tanto me lembram o Uruguay, minhas tias, minhas primas e especialmente minha mãe, que faleceu quando eu tinha apenas 22 anos!.  ´

Hoje, por exemplo,  fiz para o lanche o bolo de banana da página  444. Um bolo com gosto de Uruguay, de família, de mãe e de saudades...

Gostaria de poder traduzir um dia o livro todo para o português, para que minhas filhas e quem sabe também as futuras noras possam fazer e saborear junto com suas famílias as muitas receitas que fizeram parte da minha história, e assim não perderem algumas de nossas...raízes!

Tradução da dedicatória:]

Para quem já faz coisas gostosíssimas e com muito amor, e para que os filhos não percam algumas  de nossas raízes. Com muito carinho. Maria José.


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