segunda-feira, 30 de novembro de 2009

É MENTIRA!

Todos conhecem a história do Pinóquio. Muitos através da versão mais famosa do conto do italiano Carlo Collodi (1881) feita pelos estudios Walt Disney.  Um   fofo boneco de madeira que tem  seu  nariz aumentado a cada mentira que conta.

Será que todos que assistem ou assistiram a esse filme ou leram a história em algum livro de contos de fadas aprenderam a mensagem da historia?  Será que impacta a ponto de convencer as crianças a não mentirem?

Parou para pensar que se ensina um filho a não mentir dizendo a ele que se mentir seu  nariz vai crescer?  Dá para  acreditar?

 Uma mentira para evitar mentiras!
___________________________________________________________________________________

Quando eu era mais jovem, especialmente antes de me tornar mãe, confesso que menti muitas vezes!  Não percebia o problema de caráter envolvido na mentira  pois cresci acostumada a ver as pessoas mentirem umas 'as outras e a mentirem para mim também.  Minha mãe  chamava algumas mentiras de "mentiritas piedosas" (em espanhol). Nós as  chamamos de "mentira do bem", ou "mentira branca". Serverm para não magoarmos os outros, nos livrarmos de situações constrangedoras, não  deixarmos  nossos filhos tristes.

Descobri o mal que está por trás da "mentira do bem" quando nos casamos e fomos morar em um prédio em São Paulo.  O prédio era novo e nele  vieram morar muitos  recém-casados como nós. Era bonito  ver após  alguns meses  muitas barrigas ganhando forma e volume e passados outros tantos meses os elevadores foram ficando pequenos  para tantos carrinhos de bebês,  cestinhos de bebês e  bolsas coloridas. 

As orgulhosas mamães se encontravamos no play ground e contavamos as proezas de nossos filhotes  enquanto empurrávamos os  carrinhos, dávamos de mamar  e tiravamos dezenas de fotos dos  rechonchudos pimpolhos e de seus amiguinhos.

Passados outros meses, quando os pimpolhos já não eram tão pimpolhos e corriam, subiam nos balanços, pedalavam suas motocas e brigavam por causa da bola e da boneca, comecei a perceber... a mentira.  Como as mães mentiam para seus filhos!  Eu pensava: "Será que elas acham que as crianças são bobas?"
Quando chegava a hora de subir para o almoço ou no final do dia, normal   ver um pequeno esperneando e berrando  agarrado ao  gira-gira e gritando que queria brincar  mais um pouquinho! Então, a mamãe amorosa, para evitar que o filho sofresse lhe dizia:

- Vamos João Paulo, só vamos subir para trocar sua roupinha que sujou  e a gente já desce!
Ufa! Que alívio para o João Paulo que enxugava as lágrimas ainda fungando enquanto a mãe recolhia a motoca, os brinquedos, a garrafinha de água, a bola (ué, não iamos voltar logo?) e todo serelepe corria atrás dela rumo ao elevador para "só trocar a roupinha".

Voltavam no dia seguinte.

Ou então aquela outra que, j'a dentro do elevador espremida entre as outras mães, seus filhos e brinquedos, tentava controlar seu chorão dizendo a ele que só estavam passeando no elevador atééé lá em cima... e já iam voltar ao parquinho.

E por lá ficavam.

E a outra que,  precisando dar um pulo até a agência bancária  ia em casa perguntar se eu poderia   ficar com a  filha só por uma  "meia hora" e,  a fim de evitar o choro da sua criança lhe dizia:
- Filhinha, a mãe só vai lá em casa um minutinho e volto já, já, viu, amor? dizia com a bolsa e a chave do carro na mão e batonzinho nos lábios). Depois de duas horas surgia pelo vão da porta cheia de  sacolas de supermercado nos braços  dizendo com a maior cara-de-pau:

- Oi amor, a mamãe não demorou nadinha, viu só?

Naquele tempo eu já lia  sobre educação, família e relacionamentos.  Afinal, não nasci sabendo e queria fazer o melhor para educar meus filhos.  Li sobre a capacidade de observação das crianças, mesmo as das mais pequenas, e por isso  não mentia para os meus filhos,  por nenhum motivo. Aprendi que eles "sacavam" todas as mentiras. O pequeno percebe a mentira. Percebe que aquele  tempo todo que passou até a mãe voltar  não é igual  àquele minutinho que ele espera enquanto o leite esfria; percebe que não foi prá casa só trocar de roupa,  pois afinal ele já está ali sentadinho na banheira enquanto sente o cheirinho da sopa  esquentando no fogão e o papai já chegou do trabaho,  porque está escuro lá fora.

E assim comecei a me dar conta de como é que essas mentiras são usadas por qualquer motivo  sem nenhum sentimento de culpa.  Sem nenhuma preocupação com o dano causado ao coração das crianças. Mente-se por qualquer coisa a vida toda. As mentiras acontecem entre as crianças,  adolescentes e  adultos; elas existem entre  cônjuges,  irmãos, vizinhos, amigos. O patrão mente para seu  funcionário, o político para o povo, o comerciante para seu cliente, o aluno para o professor que também mente para o aluno. Todos mentem para todos.

Puxa vida, será que ninguém  leu Pinóquio?

Sim, leram. Mas Pinóquio, por mais bem intencionado que seja  não convence.
Não convence porque está alicerçado em princípios humanos.  O homem sabe que a mentira (quando está na cara, como a do Pinóquio), traz consequencias ruins.  O autor do conto sabia disso. E criou a história para ensinar às crianças que é feio mentir.  Se mentir vai  ficar de castigo, dormir sem sobremesa, ficar sem o brinquedo,  não vai  brincar na rua. Por isso não deve mentir.

O que o conto não diz  é que a mentira produz morte. Não só a mentira  que "está na cara" mas a que permanece oculta (ou que parece oculta e todos fingem não perceber).  A mentira mata a confiança, destrói os relacionamentos. Será que aquelas crianças do prédio,  agora  rapazes e moças, acreditam quando seus pais lhes dizem  que usar drogas é perigoso ou quando  suas mães lhes  garantem que fulana não é boa coisa e que é melhor se afastar daquela amiga? Será que valorizam a opinião de seus preocupados pais depois de uma vida de mentiras?  Afinal, quem  lhes garante que o que dizem é digno de confiança?

As Aventuras de Pinóquio não convencem porque seu autor é como você e eu. Enganou-se muitas vezes, tomou  decisões erradas, falhou, era imperfeito. Então porque seu conselho deveria  ser levado à sério? A moral da história, por mais bem intencionada que seja nunca transformou a mente de um mentiroso . É apenas uma história.

Tamb'em não existe "mentirinha piedosa".  O que existe é  mentira ou verdade.

Não quer magoar alguém? Pode escolher não dizer toda a verdade, mas não minta nunca. 

Pode dizer à sua amiga que o cabelo está bom, mas que você gostava mais como estava antes.
Isso é delicadeza.
Pode dizer que não vai dar prá almoçar com sua mãe porque já tem um compromisso marcado ao invés  de mentir dizendo que o seu carro estará na oficina
Isso é sinceridade.
Pode dizer a seu filho que não vai deixá-lo ir àquela festa porque não se sente tranquilo sabendo que ali vão rolar bebidas e drogas, ao invés de dizer que não o deixará ir  porque ele já saiu demais este mes (mesmo que isso seja verdade não é essa a  razão, certo?).
Isso é honestidade.
O ensino sobre verdade e mentira que transforma de dentro prá fora um mentiroso em uma pessoa sempre confiável não poderia vir mesmo de um boneco de madeira! O ensino capaz de convencer  é o que vem de um ser perfeito quen nunca mente e jamais  se engana!

Ensine  a seu filho que  não deve mentir não porque o nariz  vai crescer ou porque sofrerá consequencias ruins, mas porque quem diz que não devemos mentir é DEUS!

Esse argumento tem sustentação pois Deus é perfeito, e se para Ele a  mentira é abominável é porque sabe que ela causa  dor, decepção,  insegurança, rancor e amargura. E se diz que a verdade é sempre louvável é porque sabe que nela há  dignidade, credibilidade e que a pessoa sincera  é sempre merecedor de confiança. A verdade gera relacionamentos fortes, produz vida!


Abaixo duas dicas:

Dica 1: Ensinando seu filho a dizer sempre a verdade.
Premie: cada vez que seu filho disser uma verdade premie - uma bala, um iogurte um abraço de urso ou um beijo de borboleta na bochecha.  Ele experimentará  como a verdade é boa. Mas não deixe de corrigir o erro que cometeu. Por exemplo: Se confessa que foi ele quem  riscou a parede da sala dê-lhe o prêmio por ter dito a verdade mas faça-o limpar o que sujou. Admite ter comido o danone da irmã?   Premie a verdade, mas deixe-o sem o danone da próxima vez. Dessa forma a criança aprende que todo atitude errada tem consequencias negativas  mas que dizer a verdade é legal!
Penalize: Já quando ele disser uma mentira, penalize-o: deixe-o 15 minutos sentado no banquinho sem tv;  tire a sobremesa ou não o leve ao parquinho naquele dia. E se possível faça-o reparar o erro que deu origem à mentira: se mordeu o braço do vizinho,  faça-o pedir perdão;  se quebrou de propósito o  vaso da sala,  faça-o recolher os cacos e limpar a sujeira. Aprendera que  não vale a pena mentir.

Dica 2:  Ensinando  seu filho pequeno a perceber a duração do tempo.

Quando você disser a ele para esperar um pouquinho  enquanto prepara o suco,  pode dizer que espere o tamanho de uma formiguinha" (ele já deve saber como elas são pequeninhas).
Se você tiver que se vestir depois do banho, pentear o cabelo e arrumar os apetrechos para ir ao parquinho
diga a ele que vai demorar o tamanho de uma borboleta.
Quando ainda faltar um tempão para o papai chegar do trabalho, diga que falta o tempo do  tamanho de um gato e se vocês forem visitar a vovó só no fim-de-semana diga que falta o tamanho de um pitbull e se o Natal ainda estiver muito longe que tal dizer que falta o tamanho de um elefante?
Pronto, a criança começará a ter noção de quanto tempo terá  que esperar por alguma coisa.


"Os lábios que dizem a verdade permanecem para sempre,
mas a língua mentirosa dura apenas um instante."
PV 12.22

Nenhum comentário:

VOCÊ TAMBÉM VAI GOSTAR DISTO:

Related Posts with Thumbnails